| O Anjo e o Bracelete | Sinopse | Orelha de Regiana Antoninni |
Editora Novo Milênio (Ao Livro Técnico) ISBN: 85-215-0899-9 172 páginas |
Antes da pólvora, imperava no mundo a lei do mais forte. Um pequeno mal-entendido podia fazer dois homens sacarem suas espadas para lutar pela sobrevivência. Era preciso coragem, força e sangue frio ou então encarar a morte. Nesse ambiente hostil, toda a ajuda era bem-vinda e os guerreiros carregavam amuletos. Alguns eram presente das esposas ou amantes aflitas, mas outros eram preparados e cultivados por feiticeiros.
O bracelete é um desses amuletos.
Mesmo em tempos imemoriais, o Homem já devia refletir: Para onde vão os mortos? Para um céu divino, onde repousarão por toda a eternidade? Ou reencarnam para assumir uma nova vida em um novo corpo? Se reencarnam, o que fazem entre duas vidas? Quanto tempo dura esse intervalo? Alguns espíritos devem voltar à Terra rapidamente, ansiosos, mas talvez outros prefiram adiar esse retorno ao máximo.
O anjo é um desses espíritos.
Sem perceber direito se está em fuga ou em busca de sua libertação, Perácio conta sua história atravessando décadas no astral, vigiando uma jóia impregnada por uma antiga maldição. |
A melhor coisa que existe para o leitor, ao abrir um livro, é justamente a dificuldade que ele terá em fechá-lo, em parar de lê-lo. É exatamente o que acontece em O anjo e o bracelete. Uma vez que entra na história de Perácio, na sua solidão, na sua fixação em cumprir uma promessa feita há trezentos e sessenta anos, o leitor não consegue mais se separar desse surpreendente romance. Aliás, surpreender o leitor é uma característica da narrativa do autor.
Em seus dois outros livros, O brilho dos pássaros e A janela entreaberta, ele nos leva a lugares jamais imaginados.
Carlos Luz fala da espiritualidade de uma forma bastante diferente, pois ela não é doutrinadora e nem didática. É apenas relatada. Faz parte da história. Contudo, a história poderia até sobreviver sem ela, pois é mais forte, inovadora e absolutamente interessante. O anjo e o bracelete é um romance que pode ser lido em qualquer lugar, a qualquer hora. Ele prende tanto sua atenção que você se transporta para uma sala vazia. Só existe você e o livro, mesmo que esteja no metrô, numa academia de ginástica ou numa sala com a televisão ligada. Não importa. A história continua mais forte e definitivamente mais surpreendente que qualquer outra coisa. |
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Alguns trechos |
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O autor nos transporta para uma Idade Média cruelmente sexual e mágica, e depois volta ao presente com a mesma incisiva narrativa. Ele mata personagens em uma única frase e o leitor devora suas vítimas com a mesma velocidade. Fala de almas gêmeas de uma maneira sutil e, ao mesmo tempo, exata. O leitor fica esperando um encontro e ele acontece logo a seguir, pois o que importa no livro, assim como na vida, é a sucessão dos acontecimentos.
Carlos Luz deixa meio que uma advertência no ar: é preciso saber muito bem aquilo que podemos prometer para o outro. É disso que o livro fala. Perácio fez uma promessa que parecia fácil, mas que, devido a uma ironia do destino, tornou-se impossível: ele é assassinado. Depois passa séculos vagando como espírito, tentando cumprir sua promessa. Sua solidão, passividade, culpa e determinação são angustiantes e ao mesmo tempo, poéticas, lúdicas. Não sabemos o que vem a seguir e nem se ele vai conseguir o que tanto almeja, mas o fato é que acabamos cúmplices desse personagem tão conturbado. Acabamos torcendo por ele!
O anjo e o bracelete é o terceiro e o mais brilhante romance de Carlos Luz, um autor que, cada vez mais, encontra um estilo próprio e se mostra mais maduro como escritor. Eu, como leitora e admiradora, fico feliz de poder estar participando de um momento tão especial e iluminado em sua estrada. Nessa função, que ao mesmo tempo não deixa de ser missão: a de escrever e contar histórias... Com certeza, trazida por ele de outras vidas suas... De outros tempos seus... |
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"Eu estava excitadíssimo assistindo àquilo tudo e ao mesmo tempo imaginava o que Gervase faria se voltasse de repente e encontrasse a mulher na cama com a criada. De vez em quando as pessoas comentavam que algumas mulheres faziam isso, mas alguém sempre dizia que devia ser ruim, pois não havia o que enfiar. Bem, não era exatamente ruim o que Bárbara estava achando. Ela aumentou o volume de seus gritos e o ritmo de sua respiração até que não resistiu mais e gozou, profundamente, violentamente, como eu jamais havia imaginado que fosse possível. Ela fez um escândalo, literalmente. Não resisti e gozei junto, pela terceira vez seguida. Já estava ficando exausto." "Passaram-se alguns minutos e Felipe continuava desmaiado. Seu corpo astral havia se descolado do corpo físico, mas planava por perto, exatamente como se ele estivesse dormindo. O barulho seco da pancada não chamara a atenção de ninguém e as empregadas nunca entravam antes que Felipe tocasse a campainha. Uma coisa era certa: o socorro não chegaria logo. (...) Pouco depois um forte brilho invadiu a sala, me fazendo gritar assustado. Era um anjo enorme e estava entrando pela janela." "Durante séculos, homens que fizeram do assassinato o seu meio de vida usaram este bracelete e construíram a sua magia. Em muitos casos eram guerreiros, mas ele também pertenceu a uma família oriental de carrascos. Somente os homens esta família fizeram mais de dez mil cabeças rolarem, sempre com o bracelete preso ao pulso assassino. Ninguém sabe ao certo quando e para quem ele foi feito, mas foi Caio Mário quem o levou para Roma, após voltar de uma campanha na África onde derrotou Jugurta, o rei da Numídia, mais de um século antes do Cristo nascer. Em Roma, o bracelete ajudou a fazer correr o sangue de gladiadores e escravos. Depois perdeu-se no mundo por mil anos, até ser localizado no braço de Gengis Khan, na grande vitória de 1214. Contam que ele o achou por acaso, numa caverna onde fora se abrigar de uma chuva inesperada." |
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